FONTE: REVISTA SENTIDOS
Inserida em: 1/11/2005
Foto: Arquivo pessoal
Tuca Munhoz
Militando há cerca de três décadas pelos direitos das pessoas com deficiência, Antonio Carlos Munhoz, 48 anos, o Tuca, fez durante este trajeto fortes amizades e afirma que aprendeu muito. Sempre muito ativo e otimista, acredita que sua luta e das pessoas com deficiência pode sempre contribuir para avanços de toda a sociedade. Como aconteceu na recente campanha pelo SIM no referendo do desarmamento, na qual houve uma organização e mobilização exemplar das pessoas com deficiência em torno da causa culminando na criação de um comitê.
Munhoz lamenta a vitória do Não, mas tira uma lição positiva do episódio lembrando que as pessoas com deficiência podem e devem se mobilizar mais. "Sem dúvida acredito que toda a sociedade perdeu. Só para falar na questão da deficiência, milhares de pessoas se tornam deficientes no Brasil em razão da utilização de armas de fogo. Com o desarmamento tenho certeza de que esses índices diminuiriam. Mesmo com essa derrota creio que a criação do Comitê de Pessoas com Deficiência pelo Desarmamento foi uma bela amostra de que podemos, lutando por nossos direitos contribuir com o progresso social como um todo. Devemos fazer mais coisas assim."
Com seqüela de Poliomielite, que adquiriu aos 11 meses, demorou a descobrir que ele próprio não era um problema. "Comecei a andar aos dez meses. Recomecei a andar aos sete anos utilizando muletas e aparelho ortopédico. Tive os estudos interrompidos aos 11 anos de idade e fiquei até os 17 entre minha casa, todo engessado, e o Hospital das Clínicas, onde tentaram me 'arrumar'." Tuca conta que tinha exatamente 19 anos quando descobriu que o problema não estava nele mas sim na sociedade não preparada para receber toda diversidade humana. "Descobri que não conseguia subir num ônibus porque ele não era acessível, ou seja, descobri que o problema não estava em mim. O problema estava no ônibus! Foi a descoberta da América. A partir de então comecei a procurar outras pessoas com deficiência com quem pudesse compartilhar essa minha óbvia descoberta. Conheci então o NID - Núcleo de Integração do Deficiente, onde fiz grandes amizades e aprendi muito." Munhoz é integrante, hoje, do CVI-Aracy Nallin, do Movimento Grande ABC para Todos e do Instituto MID para a Participação Social das Pessoas com Deficiência e seu objetivo é trabalhar para fortalecê-las.
Filósofo por formação, atua como consultor em projetos sociais e políticas públicas para pessoas com deficiência. Munhoz é muito critico à sociedade de consumo, onde o mercado dita todas as regras. "O mercado dita o que tem valor e o que não tem. E sobretudo quem tem e quem não tem poder. A nossa luta, enquanto pessoas com deficiência, se insere nessa relação. Lutamos pelo poder, o poder de falarmos por nós próprios, de sermos os protagonistas de nossa história. Por que até hoje, tantas pessoas falam por nós? Por que até hoje temos tão pouco espaço social?"
Tuca, quando mais jovem, se aventurou por diversas áreas de atuação. Gostava de pintar e chegou até a criar alguns quadrinhos. Mas não foi adiante. Hoje, o que mais gosta de fazer é passear com a filha de 4 anos, Cecília. "Comprei uma cadeira motorizada especialmente para isso. Saímos no domingo pela manhã, vamos a feira comer pastel, depois para a piscina, teatro, etc. Batendo papo o tempo todo." Ele conta que a menina é muito observadora. Um dia, ao ver um grupo de policiais em motocicletas, Cecília perguntou se também havia policiais em cadeira de rodas. "Há um tempo atrás o que ela mais queria eram muletinhas da Barbie!"
Preguiçoso para esportes, às vezes pratica natação por lazer. Mas isso não quer dizer que não incentive as atividades físicas e acredite no seu poder de reabilitação. Agora, o MID está organizando para o dia 3 de Dezembro, Dia Internacional de Luta das Pessoas com Deficiência, o Enduro da Autonomia. Consiste na descida em cadeiras motorizadas da Estrada Velha de Santos.
(Saiba mais: clique aqui)
Conheça nesta entrevista sua trajetória de vida, confira suas opiniões e reflexões sobre a inclusão das pessoas com deficiência no Brasil e seus planos para o futuro.
Sentidos: Por que escolheu cursar Filosofia? Onde cursou?
Tuca Munhoz: Cursei Filosofia na Universidade Metodista de São Bernardo do Campo. Escolhi Filosofia porque considerei a época que esse curso seria importante para eu ter uma base cultural sólida. Foi uma decisão acertada.
S: E antes, estudou sempre em escolas regulares?
Tuca Munhoz: Fora a Universidade estudei sempre em escolas públicas, no primário tive muita sorte pois havia um casal de serventes, dna. Lídia e seu Raimundo, que me levavam para o grupo escolar e traziam para casa no colo, todos os dias. No ginásio sempre a questão das escadas, presentes até hoje nas escolas estaduais. Tive os estudos interrompidos aos 11 anos de idade, e fiquei até os 17 entre minha casa, todo engessado, e o Hospital das Clínicas, onde tentaram me "arrumar". Passei nesse período por treze cirurgias. Meus pais tinham muitas dúvidas sobre se eu devia passar por todo aquele sofrimento e ter minha adolescência vivida num hospital, mas eu insistia muito no tratamento, pois ingenuamente acreditava que aquilo seria o melhor para mim.
S: Em relação ao acesso à educação, considera que houve avanços?
Tuca Munhoz: Vejo com muita felicidade essa nova fase com a inclusão de crianças com deficiência no ensino regular. Sinto-me pessoalmente vitorioso juntamente com muitos outros companheiros e companheiras do movimento de pessoas com deficiência que há mais de duas décadas luta pela inclusão, ampla geral e irrestrita.
S: A mudança cultural e a quebra de paradigmas em relação à deficiência passam pela escola?
Tuca Munhoz: Não tenho dúvidas de que a inclusão escolar é uma situação que gera conflitos e dificuldades, e isso é muito bom, pois existem fatores políticos e ideológicos que estão por trás disso. E insisto sempre em dizer: não é possível a inclusão escolar sem um forte investimento na qualidade do ensino para todas as crianças. Inclusão e qualidade no ensino são indissociáveis.
S: Como relaciona ética, estética e deficiência?
Tuca Munhoz: No que se refere à ética, quero afirmar minha convicção de que a questão da deficiência é uma questão de direitos humanos e não posso discutí-la fora desse contexto. A exclusão das pessoas com deficiência não é um fator isolado e não comunicante com a exclusão de outros setores, minoritários ou não da sociedade. A luta por nossos direitos deve estar em diálogo com outras lutas sociais. Cito como exemplo a questão do transporte, um serviço precaríssimo para a grande maioria da população, e praticamente inexistente para nós. Enquanto não houver transporte público de qualidade para todas as pessoas, também para nós não haverá.
Quanto à questão estética, existe um padrão do que é tido como feio e bonito, cabe também a nós questionarmos esse padrão, quem o inventou, a que interesses se presta. Essa é uma questão especialmente cara às mulheres com deficiência. E existem companheiras realizando trabalhos interessantes nessa área.
Munhoz lamenta a vitória do Não, mas tira uma lição positiva do episódio lembrando que as pessoas com deficiência podem e devem se mobilizar mais. "Sem dúvida acredito que toda a sociedade perdeu. Só para falar na questão da deficiência, milhares de pessoas se tornam deficientes no Brasil em razão da utilização de armas de fogo. Com o desarmamento tenho certeza de que esses índices diminuiriam. Mesmo com essa derrota creio que a criação do Comitê de Pessoas com Deficiência pelo Desarmamento foi uma bela amostra de que podemos, lutando por nossos direitos contribuir com o progresso social como um todo. Devemos fazer mais coisas assim."
Com seqüela de Poliomielite, que adquiriu aos 11 meses, demorou a descobrir que ele próprio não era um problema. "Comecei a andar aos dez meses. Recomecei a andar aos sete anos utilizando muletas e aparelho ortopédico. Tive os estudos interrompidos aos 11 anos de idade e fiquei até os 17 entre minha casa, todo engessado, e o Hospital das Clínicas, onde tentaram me 'arrumar'." Tuca conta que tinha exatamente 19 anos quando descobriu que o problema não estava nele mas sim na sociedade não preparada para receber toda diversidade humana. "Descobri que não conseguia subir num ônibus porque ele não era acessível, ou seja, descobri que o problema não estava em mim. O problema estava no ônibus! Foi a descoberta da América. A partir de então comecei a procurar outras pessoas com deficiência com quem pudesse compartilhar essa minha óbvia descoberta. Conheci então o NID - Núcleo de Integração do Deficiente, onde fiz grandes amizades e aprendi muito." Munhoz é integrante, hoje, do CVI-Aracy Nallin, do Movimento Grande ABC para Todos e do Instituto MID para a Participação Social das Pessoas com Deficiência e seu objetivo é trabalhar para fortalecê-las.
Filósofo por formação, atua como consultor em projetos sociais e políticas públicas para pessoas com deficiência. Munhoz é muito critico à sociedade de consumo, onde o mercado dita todas as regras. "O mercado dita o que tem valor e o que não tem. E sobretudo quem tem e quem não tem poder. A nossa luta, enquanto pessoas com deficiência, se insere nessa relação. Lutamos pelo poder, o poder de falarmos por nós próprios, de sermos os protagonistas de nossa história. Por que até hoje, tantas pessoas falam por nós? Por que até hoje temos tão pouco espaço social?"
Preguiçoso para esportes, às vezes pratica natação por lazer. Mas isso não quer dizer que não incentive as atividades físicas e acredite no seu poder de reabilitação. Agora, o MID está organizando para o dia 3 de Dezembro, Dia Internacional de Luta das Pessoas com Deficiência, o Enduro da Autonomia. Consiste na descida em cadeiras motorizadas da Estrada Velha de Santos.
(Saiba mais: clique aqui)
Conheça nesta entrevista sua trajetória de vida, confira suas opiniões e reflexões sobre a inclusão das pessoas com deficiência no Brasil e seus planos para o futuro.
Sentidos: Por que escolheu cursar Filosofia? Onde cursou?
Tuca Munhoz: Cursei Filosofia na Universidade Metodista de São Bernardo do Campo. Escolhi Filosofia porque considerei a época que esse curso seria importante para eu ter uma base cultural sólida. Foi uma decisão acertada.
S: E antes, estudou sempre em escolas regulares?
Tuca Munhoz: Fora a Universidade estudei sempre em escolas públicas, no primário tive muita sorte pois havia um casal de serventes, dna. Lídia e seu Raimundo, que me levavam para o grupo escolar e traziam para casa no colo, todos os dias. No ginásio sempre a questão das escadas, presentes até hoje nas escolas estaduais. Tive os estudos interrompidos aos 11 anos de idade, e fiquei até os 17 entre minha casa, todo engessado, e o Hospital das Clínicas, onde tentaram me "arrumar". Passei nesse período por treze cirurgias. Meus pais tinham muitas dúvidas sobre se eu devia passar por todo aquele sofrimento e ter minha adolescência vivida num hospital, mas eu insistia muito no tratamento, pois ingenuamente acreditava que aquilo seria o melhor para mim.
Tuca Munhoz: Vejo com muita felicidade essa nova fase com a inclusão de crianças com deficiência no ensino regular. Sinto-me pessoalmente vitorioso juntamente com muitos outros companheiros e companheiras do movimento de pessoas com deficiência que há mais de duas décadas luta pela inclusão, ampla geral e irrestrita.
S: A mudança cultural e a quebra de paradigmas em relação à deficiência passam pela escola?
Tuca Munhoz: Não tenho dúvidas de que a inclusão escolar é uma situação que gera conflitos e dificuldades, e isso é muito bom, pois existem fatores políticos e ideológicos que estão por trás disso. E insisto sempre em dizer: não é possível a inclusão escolar sem um forte investimento na qualidade do ensino para todas as crianças. Inclusão e qualidade no ensino são indissociáveis.
S: Como relaciona ética, estética e deficiência?
Tuca Munhoz: No que se refere à ética, quero afirmar minha convicção de que a questão da deficiência é uma questão de direitos humanos e não posso discutí-la fora desse contexto. A exclusão das pessoas com deficiência não é um fator isolado e não comunicante com a exclusão de outros setores, minoritários ou não da sociedade. A luta por nossos direitos deve estar em diálogo com outras lutas sociais. Cito como exemplo a questão do transporte, um serviço precaríssimo para a grande maioria da população, e praticamente inexistente para nós. Enquanto não houver transporte público de qualidade para todas as pessoas, também para nós não haverá.
Quanto à questão estética, existe um padrão do que é tido como feio e bonito, cabe também a nós questionarmos esse padrão, quem o inventou, a que interesses se presta. Essa é uma questão especialmente cara às mulheres com deficiência. E existem companheiras realizando trabalhos interessantes nessa área.
Tuca Munhoz: Sou completamente favorável às políticas afirmativas em especial à Lei de Cotas. Porém, considero que ela não tem a efetividade ideal aplicada isoladamente, como está acontecendo agora. É de fundamental importância que haja um conjunto de políticas públicas voltadas para a inclusão, ou melhor, para a desconstrução dos mecanismos de exclusão.
Na gestão passada, na prefeitura de São Paulo, iniciamos a implementação de um projeto piloto nessa área, o Projeto Lavoro, na subprefeitura da Mooca. Construímos um grupo de trabalho com a participação de várias Secretarias municipais - Trabalho, Educação, Saúde, Transporte, Assistência Social, CPA, etc - em conjunto com a Delegacia Regional do Trabalho, órgãos patronais e de trabalhadores e ONGs. Desenvolvemos iniciativas e ações que procuraram enfrentar todas as barreiras que interpõem entre as pessoas com deficiência e o mercado de trabalho. Infelizmente essa projeto foi interrompido com a mudança de governo.
S: Falando em políticas de governo, como se deu seu envolvimento com a política?
Tuca Munhoz: Minha militância partidária, sempre no PT, teve início na mesma época de minha militância na área das pessoas com deficiência. Fui fundador do Partido em minha cidade, São Caetano do Sul, e estive nos últimos cinco anos à frente, como coordenador, do Setorial Paulista das Pessoas com Deficiência do PT. Desde as últimas eleições internas do Partido tomou posse desse cargo o companheiro Celso Zoppi, antigo militante de nossa causa e vereador na cidade de Americana.
É com dificuldade que lutamos dentro do Partido pelo reconhecimento de nossa causa. O Diretório Estadual não é acessível, tem escadaria enorme, mas por outro lado temos conseguido que algumas administrações municipais criem e implantem políticas de atenção às pessoas com deficiência.
S: Fale um pouco sobre uma política bem sucedida.
Tuca Munhoz: Em 1996, em Santo André, no início do governo de Celso Daniel, participamos da criação da Assessoria das Pessoas com Deficiência, órgão da então Secretaria de Cidadania, que tinha como atribuição propor e assessorar o governo na implementação de políticas públicas de atenção às pessoas com deficiência, articulando as diversas Secretarias e outras instancias de governo para essa finalidade. Uma de nossas maiores vitórias foi a implementação do Programa de Reabilitação Baseada na Comunidade.
S: Como avalia os recentes escândalos em Brasília?
Tuca Munhoz: Quanto à atual situação em que vive o Partido, acredito que uma parcela ainda poderosa do PT foi contaminada por práticas bastante tradicionais e nefastas do modo de fazer política no Brasil. Temos que lutar contra isso fortalecendo os setores que se são fiéis ao ideário em torno do qual se construiu o Partido dos Trabalhadores.
S: Considera que em relação à cultura e lazer a sociedade e os comerciantes avançaram?
Tuca Munhoz: Sem dúvida houve muito avanço. Fazendo uma retrospectiva de quando começamos, eu e muitos outros companheiros e companheiras, há quase trinta anos atrás, podemos constatar muita coisa positiva. Temos, porém, muito por conquistar. E fazer com que tudo isso chegue às pessoas com deficiência às periferias e às regiões mais pobres do país. Fortalecendo, por exemplo, movimentos como a FCD - Federação Cristã de Doentes e Deficientes, exemplo de determinação e de consciência política.
S: Sobre o MID, conte um pouco sobre como nasceu o projeto e como está hoje.
Tuca Munhoz: O MID nasceu em 1991 como Movimento de Integração do Deficiente na cidade de Santo André (SP). Tinha como objetivo lutar pelos direitos das pessoas com deficiência e pela criação do Conselho Municipal das Pessoas com Deficiência dessa cidade. Hoje somos o Instituto MID para a Participação Social das Pessoas com Deficiência, e recentemente recebemos o certificado de Oscip, continuamos lutando pelos nossos direitos e participamos do Comdef, o Conselho das Pessoas com Deficiência de Santo André, criado em 1998.
Temos orgulho em ser uma entidade criada e dirigida por pessoas com deficiência, presidência, vice-presidência e secretaria são cargos ocupados por pessoas com deficiência, e nossa presidenta de honra é mãe de uma menina com síndrome de down. Também atuamos com projetos de responsabilidade social para empresas, de consultoria para a implementação de políticas públicas em municípios. Temos o Projeto ARCO de Reabilitação Baseada na Comunidade em parceria com a Prefeitura de Santo André, estamos construindo o Borboletário MID para geração de renda para pessoas com deficiência, etc.
S: Quais seus projetos para o futuro?
Tuca Munhoz: Tenho projetos para o futuro próximo. Quero ajudar a fortalecer as entidades que faço parte, o MID, o CVI Aracy Nallin, e o Movimento Grande ABC para Todos. Este último, aliás, que estará lançando brevemente o Guia de Verificação de Acessibilidade nos Municípios do Grande ABC. Baseado no Decreto 5.246, esse Guia será referência nos municípios da região para a implementação de acessibilidade para pessoas com deficiência.
Também estou muito otimista com a Campanha da Fraternidade 2006. Fraternidade e Pessoas com Deficiência. Estou certo de que será um elemento de avanço na direção de uma sociedade e de uma Igreja mais inclusiva e menos preconceituosa.
S: E o futuro pessoal? Como está a área sentimental?
Tuca Munhoz: Estou namorando. Adoro namorar e quero ser um namorado cada vez melhor.
S: Considera-se independente?
Tuca Munhoz: Completamente.
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