Por Reinaldo
Bulgarelli
Peguei os dados da pesquisa do
Instituto Ethos e IBOPE – Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 Maiores
Empresas do Brasil e Suas Ações Afirmativas, divulgada em novembro de 2010, para
saber como andava a evolução da contratação de mulheres, negros e pessoas com
deficiência de2001 a2010, período em que essa pesquisa vem sendo realizada. Não
é assim que se faz contas e muito menos projeções porque a vida é mais complexa
e há muitos fatores influenciando nestes dados, mas fiz o que não se deve
fazer.
Peguei os dados de cargos executivos,
que evoluíram 0,3 pontos percentuais em nove anos. Considerando que as pessoas
com deficiência representavam 24% da população, de acordo com o Censo de 2010, e
considerando que paramos de discrimina-las em 2010, fiz a seguinte pergunta: em
quantos anos atingiremos a igualdade entre pessoas com e sem deficiência no
quadro executivo das empresas no Brasil? Sabem qual foi a resposta? Em mil
setecentos e um anos. Já imaginou se não houvesse a legislação de cotas para
esse segmento? No ano de 3.711 tudo estará resolvido em termos de representação
justa nos cargos de liderança das 500 maiores empresas do
Brasil…
Para negros, fazendo o mesmo cálculo,
a igualdade no quadro executivo acontecerá daqui a 149 anos e para as mulheres
em 42 anos. As mulheres, desde que não sejam negras e sem deficiência, porque aí
a conta seria outra, estão em melhor situação, ou seja, em 2052 elas poderão
comemorar o fim da disparidade entre homens e mulheres na liderança das
empresas. Se nada for feito, se deixarmos as coisas andarem “naturalmente”,
assim será. Já fez as contas para saber quantos anos você terá? E suas filhas?
Tem coragem de dizer a uma mulher que está ingressando agora no mercado de
trabalho que em 42 anos ela não enfrentará mais barreiras e até poderá ocupar
“naturalmente” cargos de liderança importantes nas
empresas?
Volto a dizer que é um exercício de
ficção científica porque a vida é complexa e também encontra soluções cada vez
mais inteligentes para aquilo que a sociedade elege como prioritário. Assim eu
acredito porque somos capazes de tantas coisas boas. Depende de nossa vontade
para priorizar esse tema da equidade, da valorização da diversidade e da
inclusão.
Estamos priorizando enfrentar as
desigualdades injustas? Já não nos conformamos mais com estes dados e buscamos
dar respostas que modifiquem a realidade atual? Paramos de transformar
diferenças em motivo para a geração dessas desigualdades injustas? Eu acredito
que estamos agora lidando melhor com esses temas. A decisão do STF sobre cotas
para negros nas universidades é um exemplo que me deixa
otimista.
Mas, ainda tem muita gente no mundo
empresarial que acredita que tudo se resolverá naturalmente. Como poderemos
resolver com tanta naturalidade o que criamos e mantemos com tamanho gasto de
energia? Sim, tenho apresentado constantemente essa ideia de que gastamos mais
energia (tempo, dinheiro, inteligência…) para excluir, para criar processos,
sistemas e estruturas para deixar alguns do lado de fora, do que gastaríamos
para a inclusão. Fazemos de tudo para afastar nossas organizações da
diversidade.
Parando de atrapalhar o caminho das
pessoas já teríamos um bom resultado. Custa caro incluir? E quanto custa ficar
criando esse aparato da exclusão? E o custo de deixar parte do mercado interno
excluído do trabalho? Nem estou falando no sofrimento que isso representa para
as pessoas apartadas, assim como não estou falando de trabalho decente, de
equiparação salarial, de qualidade de vida para todos, sem disparidades entre
pessoas com e sem deficiência, homens e mulheres, brancos e negros. Também não
estão falando aqui do prejuízo para as empresas do ponto de vista do
empobrecimento que significa, por exemplo, 87% de homens tomando decisões
importantes sobre o presente e o futuro delas. É o dado que temos hoje nas 500
maiores empresas.
A diversidade enriquece os ambientes
e melhora a qualidade das decisões ao trazer mais perspectivas, pontos de vista,
interesses, histórias de vida, entre outros aspectos, para a mesa de discussões.
O planejamento estratégico é afetado diretamente por uma rica diversidade que
possa se expressar e interagir. Quando isso não acontece, o risco da mesmice, a
visão limitada sobre a realidade e a qualidade da ação sobre essa realidade
podem comprometer o sucesso dos empreendimentos. Parece óbvio, mas essa ausência
de alguns de nós incomoda muita gente, mas não tanta gente quanto seria
necessário para mudar mais rapidamente essa realidade.
E você, o que acha que poderia ser
feito? O que poderíamos deixar de fazer ou fazer mais e melhor para acelerar as
transformações na direção de maior diversidade nas empresas brasileiras? O que
você tem feito para contribuir nesta mudança?
Ana, parabéns pelo blog! Muito legal compartilhar impressões, passar informações sobre a Sindrome de Apert, falar da vida, não é mesmo. Seu blog já é uma referência importante e faz a diferença neste mundo em que nos conhecemos tão pouco e nos separamos demais em função da diversidade que nos caracteriza. Beijos! Reinaldo Bulgarelli
ResponderExcluirReinaldo,
ResponderExcluirEspero que eu posso passar para as pessoas, um pouco da minha experiência de vida, meus obstaculos, angustias, vitorias e aprendizados.
Obrigada pela linda mensagem. Isso é um incentivo para mim.
Beijos, Ana.